quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

neoplasia no fígado de um felino



Essa imagem é de um animal com hepatomegalia à palpação. O fígado sempre deve estar encerrado nos limites do gradil costal, porém no caso deste paciente, era possível palpar os lobos hepáticos muito abaixo; palpava-se também estruturas endurecidas próximas à vesícula biliar.
Ao ultrassom observamos diversas estruturas circulares, com conteúdo anecóico, adjacentes à vesícula biliar. Nesses casos, especialmente em felinos que têm dilatação do ducto biliar devido à tríade é felina, é comum ficar em dúvida se o que estamos vendo na imagem é um ducto dilatado, um vaso ou uma formação patólogica. Para sanar isso de modo não invasivo, primeiramente devemos mover o transdutor em diversas direções, mantendo nossa atençao no formato que essas estruturas adquirem, observando se são cilíndricas, ovais, redondas ou císticas; depois escolhemos um corte e mantemos o transdutor sobre ele, tentando verificar se há pulsação ou circulação sangüínea (no caso dos aparelhos com doopler colorido). Isso nos trará um pouco mais de segurança, pois como o conteúdo observado nesse caso tem a ecogenicidade de líquido, nada podemos concluir sobre sua origem. É importantíssimo ter em mente que normalmente os ductor hepáticos e biliares não são observados num exame ultrassonográfico. Se pudermos vê-los, já temos um indicativo de alteração hepática; neste caso a parede do ducto não é hiperecóica. O que vemos é uma estrutura cilíndrica anecóica, delimitada apenas pelo próprio parênquima hepático, cuja ecogenicidade é característica. Quando observamos estruturas cilíndricas com parede hiperecóica e pulsação, o que estamos vendo são as artérias hepáticas, já que as veias não são visualizadas.
Neste caso, não se tratava de ductos hepáticos ou biliares, pois há uma delimitação hiperecóica do conteúdo hipoecóico. Ao mover o transdutor de um lado ao outro das estruturas, percebemos que eram ovais ou redondas, eliminando totalmente a possibilidade de serem artérias em corte transversal.
Agora sabemos com certeza que são cistos de conteúdo anecóico. Qual sua origem, desenvolvimento, causa, grau de malignidade... Apenas o exame histopatológico poderá confirmar. Mas existem certos padrões ultrassonográficos que nos ajudam a nortear o prognóstico: o padrão das neoplasias, seu formato e o parênquima e contorno do órgão atingido. Quanro ao padrão das neoplasias, observamos que aquelas em pequena quantidade, pouco espalhadas pelo órgão, pequenas em tamanho e repetitivas, tendem a ser benignas, porém em se tratando do fígado, formações císticas podem ter diversos significados que não neoplasia, como cistos, abscessos, processos de lise celular. É importante levar em consideração, antes de mais nada, o estado geral do paciente, que neste caso era sofrível, o que já nos faz desconfiar de algo potencialmente invasivo. O formato das lesões hepáticas costuma ser de repetição, pois trata-se de um órgão de grande circulaçao sanguüínea. É de senso comum que uma lesão em formato de "olho de boi" ou "alvo" costuma ser maligna, especialmente em órgãos como fígado e baço, de parênquima normalmente uniforme. Isso não quer dizer que as que não sigam este padrão sejam necessariamente benigna. Já em relação ao parênquima e contorno do órgão afetado, temos que o parênquima ainda intacto nas adjacências da lesão costuma indicar padrão benigno, enquanto que lise celular adjacente, grandes áreas de hiperecogenicidade ao redor indicam uma formação mais invasiva e maligna. O contorno do órgão suspeito sempre deve ser observado pois a irregularidade do mesmo é sugestiva de malignidade.
Tudo isso deve ser levado em conta para alertar o clínico responsável pelo paciente quanto à urgência de uma intervenção cirúrgica, química ou laboratorial, mas não deve ser tomado como regra imutável, pois há casos que nos surpreendem, como este. Olhando a imagem do ultrassom, o parênquima hepático está preservado, o contorno do mesmo também, as lesões são pequenas, poucas e circulares, uniformes, de conteúdo anecóico limpo. Tudo poderia nos induzir a pensar em cistos ou abscessos, mas o estado geral do paciente era terrível, e ele veio a falecer uns poucos minutos antes desse exame. O material coletado na necropsia foi enviado para análise laboratorial e será publicado aqui assim que divulgado.

4 comentários:

  1. Olá, bom dia! Fiz um exame de uma poodle que estava sendo tratada para colangiohepatite (eu mesma fiz o exame 2 semana atrás). Neste último exame visualizei diversas áreas cavitárias, de formatos variados (cilíndricas, ovaladas) e que não mudam de calibre. Não é possível delimitar parede e o conteúdo é anecóico. Não pensei em neoplasia pois no exame anterior não havia nenhuma alteração agora observada. Tb não tem formato de cisto. Me ajude!!! Como posso te enviar as imagens? Obrigada, Daiane Garrido

    ResponderExcluir
  2. olá daiane, obrigada pelo seu comentário. me envie as imagens no fernanda.vet@hotmail.com que darei uma olhada para podermos trocar idéias e quem sabe eu consiga te ajudar.
    abraços

    ResponderExcluir
  3. Olá Dra. Fernanda, moro muito longe de você, e gostaria que, por gentileza, avaliasse o laudo ultrassonografico de meu cãozinho. Estou desesperada.Enviei por email as informações dele.

    Érica Fumagal

    ResponderExcluir