terça-feira, 5 de maio de 2015

Anomalia renal unilateral em um cão






Canídeo de aproximadamente três anos de idade, sem raça definida, do gênero masculino, reprodutivamente ativo, porte médio. Foi atendido na clínica veterinária por apresentar disúria e/ou anúria, disquesia e hipo ou anorexia. 

Ao exame ultrassonográfico notou-se diversas formações arredondadas e de superfície lisa e hiperecóica sedimentadas em lúmen de vesícula urinária (paciente em decúbito dorsal), produzindo intensa e límpida sombra acústico posterior. Cada uma das estruturas media aproximadamente 1,00 cm de diâmetro, quando era possível isolá-las para mensuração, já que à manobra de balotamento, devido ao peso, os cálculos não flutuavam tão facilmente. 

A próstata do paciente apresentava dimensões aumentadas e heterogeneidade notável de parênquima, com características raiadas e singulares. 

Era possível observar espessamento discreto da parede da bexiga, já que sua repleção era intensa, mesmo com a sonda uretral presente e bem posicionada - característica constatada através da ultrassonografia. A face interna parietal apresentava claros sinais de desprendimento e hiperecogenicidade notável, formando estrias parcialmente aderidas à parede. 

O rim direito era facilmente visível devido ao tamanho expressivo de aproximadamente 10,0 cm de comprimento em eixo longitudinal, destacando o parênquima de seu estrato cortical intensamente hiperecóico e estriado, com aspecto raiado e regular, comprimindo concentricamente a camada medular e mantendo intacto o padrão de diferenciação córtico-medular. Seu contorno externo próprio era regular, porém seu formato arredondado, imagem reforçada pela presença de intenso derramamento líquido subcapsular generalizado. 

O ureter correspondente ao rim afetado era visível até sua porção mediana por apresentar calibre de aproximadamente 0,57 cm, distendido por líquido anecóico, com paredes regulares e trajeto moderadamente tortuoso. 

Ao redor do rim direito e ao longo de todo o hemiabdômen de mesmo lado, havia líquido livre em cavidade abdominal e hiperecogenicidade do peritônio e da gordura locais, sendo o líquido de aparência sonográfica heterogênea devido aos diversos ecos puntiformes flutuantes em seu meio. 

As características imaginológicas das alterações poderiam sugerir ruptura de ureter direito, logo o paciente foi encaminhado ao centro cirúrgico para laparotomia exploratória de urgência. 

A cirurgiã responsável pelo procedimento relata aderência intensa e de difícil remoção do rim direito em musculatura dorsal, presença de líquido livre em cavidade abdominal com aspecto de urina e peritonite focal notável. Ainda de acordo com a médica veterinária, o ureter direito não apresentava sinais de descontinuidade parietal. 

A origem da urina em cavidade abdominal pode advir da dificuldade de esvaziamento vesical, provocando adelgaçamento da parede da bexiga por distensão e extravasamento de conteúdo à cavidade, causando peritonite pelo próprio contato com o líquido irritante. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Índice de resistividade

O índice de resistividade refere-se à resistência física que a parede vascular exerce no fluxo sangüíneo. Seu cálculo é feito com a seguinte fórmula: pico diastólico-vale diastólico/pico diastólico, valores obtidos através do Doppler ultrassonográfico. 

Na medicina humana a avaliação do índice de resistividade (IR) da vascularização renal tem se mostrado uma ferramenta útil para o prognóstico e até diagnóstico mais preciso de doenças como nefropatia(s) aguda(s) ou falência renal aguda, obstrução do trato urinário superior ou inferior, nefropatias intrínsecas do parênquima, doenças vasculares locais e neoplasias primárias (TUBLIN et al, 2003; NEWELL et al, 1999; POLLARD et al, 1999; NYLAND et al, 1993; POZNIAK et al, 1988).

O IR inferior a 0,70 é considerado normal para as artérias interlobares ou segmentais e para as arqueadas (localizadas na junção entre os estratos cortical e medular). Uma maior resistência vascular pode resultar em diminuição do fluxo diastólico e aumento relativo do pico sistólico, tornando mais alto o valor do IR como pode-se observar na imagem que ilustra essa publicação (NYLAND et al, 2002).

Este aumento do IR em casos de nefropatias crônicas previamente detectadas através da combinação conhecida de exame ultrassonográfico e bioquímico pode indicar maior fibrose tecidual e por conseqüência resulta em um prognóstico reservado. 


Referências:
NEWELL et al. Scintigraphic, sonographix and histologic evaluation of renal autotransplantation in cats. Am J Vet Res, 60:775-779. 1999.
NYLAND et al. Diagnosis of urinary tract obstruction in dogs using duplex Doppler ultrasonography. Vet Radiol Ultrasound, 34:348-352, 1993.
NYLAND et al. Small Animal Diagnostic Ultrasound. Saunders, 2002.
POLLARD et al. Ultrasonographic evaluation of renal autografts in normal cats. Vet Radiol Ultrasound, 40:380-385, 1999
POZNIAK et al. Extraneous factors affecting resistive index. Invest Radiol, 23: 889904, 1988
TUBLIN, M., BUDE, R.O. & PLATT, J.F. The resistive index in renal Doppler sonography: Where do we stand?. Am J of Roentg, 180:885-892, 2003.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Aplicações ultrassonográficas

A ultrassonografia é um exame complementar de imagem que auxilia o clínico médico veterinário a guiar seus diagnósticos, logo é importante saber todas as aplicabilidades desta modalidade.

A mais conhecida é a ecografia abdominal, utilizada para diagnóstico e acompanhamento gestacional e para a avaliação morfológica dos órgãos, glândulas e estruturas locais. Por ser um exame que detecta movimentos, é possível também avaliar peristaltismo intestinal, motilidade fetal, infusões de fármacos, drenagem e centeses, dinâmica vascular com a combinação do método Doppler e outros, que incluem as coletas de materiais com a visualização constante da agulha.

Este exame de imagem ainda permite a localização de plexos vasculares e nervosos para injeção de bloqueios anestésicos locais, coleta de sangue e oximetria arterial. A musculatura e possíveis nódulos subcutâneos, epiteliais e/ou musculares também podem ser escaneados por este método, que combinado ao Doppler e outros parâmetros, pode fornecer informações sobre vascularização, tamanho, aspecto, implantação, forma, origem; todas úteis na determinação de um prognóstico sobre benignidade ou malignidade de uma lesão. O sistema linfático periférico pode se encaixar neste momento. 

O pescoço é outra região que pode ser ultrassonografada, abrindo uma janela para linfonodos, glândulas, traquéia, esôfago, vasos, língua, hióide e tireóide/paratireóide.

O encéfalo de animais até 10 kg de peso vivo também pode ser parcialmente avaliado, jogando luz sobre suspeitas de massas, hidrocefalia e outras. Ainda na cabeça podemos observar o globo ocular inteiro, desde a superfície corneana até o fundo, passando pela câmara anterior, lente, corpo ciliar e vítreo.

Coração e vascularização central, juntamente com cavidade torácica e superfície pulmonar são amplamente visualizados na ultrassonografia e têm suas anatomias e movimentos facilmente detectados. 

Com menor aplicação, porém ainda possível, a superfície óssea é outra área visível ao ultrassonografista, que pode detectar até pequenos edema periósteos, fraturas e fissuras. 

Ainda temos o ultrassom combinado ao constraste líquido e no futuro por microbolhas, que chegará a fornecer informações ditas microscópicas. 

Consulte seu ultrassonografista para saber mais sobre preparo pré-exame e materiais necessários caso opte por uma modalidade não usual do exame. 




terça-feira, 10 de junho de 2014

O ultrassonografista

A ultrassonografia é um exame dito operador dependente, ou seja, a habilidade do médico veterinário que manipula o aparelho de ultrassom reflete diretamente na qualidade das imagens obtidas. 

Além de ser dono de uma técnica manual e mecânica adequada, o ultrassonografista deverá adquirir e expandir sua capacidade mental de criação e armazenamento de figuras. 

Todos os dias formas e tonalidades aparecerão em frente aos olhos do operador e seu banco de dados mental ficará mais rico. 



Entrará em ação seu senso criítico obtido durante os estudos de clínica médica para analisar, julgar e sugerir diagnósticos a partir de uma imagem. 

Reunindo todas as informações gestadas durante o exame, o ultrassonografista redigirá o laudo do exame, relatando as alterações fisicas das estruturas observadas e indicando o que isto pode significar. 

Muitas vezes uma alteração não é patognomônica (não é característica clássica e diagnóstica de uma doença) e pode indicar várias enfermidades. Por isso a ultrassonografia, os outros exames de imagem, a avaliação clínica e os exames laboratoriais devem sempre trabalhar juntos e concomitantes. 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O que é ecografia?

O que é a ultrassonografia? 

Muitos dos leitores aqui são médicos veterinários, outros felizes proprietários de cães, gatos, chinchilas, pássaros (...), alguns ultrassonografistas e - arrisco dizer - todos curiosos, que acham interessante uma ou outra palavra, um ou outro tema como o famigerado "corpos estranhos". Mas essas imagens misteriosas que aparecem na tela não são fruto da imaginação do imaginologista (como esta definição pode erroneamente sugerir) são fruto de um fenômeno físico muito simples, o eco. Sim, ecografia é uma palavra que deriva do grego, sendo a junção de "echo" com "graphus". Echos realmente significa eco, que por definição portuguesa quer dizer "Repetição de um som reenviado por um corpo duro"; já graphus pode-se dizer que dependendo do contexto queira dizer descrição, escrita, grafia. 

Perfeito, então as imagens em muitas tonalidades e subtonalidades de cinza são a visualização do eco sonográfico? Exatamente. 

Basicamente o transdutor emite uma vibração sonora muito alta, o ultrassom (inaudível a nós seres humanos e à maioria dos animais com que lidamos em nosso dia-a-dia veterinário, pois ultrapassa os 20 KHz, ou 20.000 Hz) que encontra um tecido ou líquido no seu caminho, que possui certamente um grau de refração sonora, que retorna ao transdutor, é recebida pelos cristais pizoelétricos e interpretada pelo software do aparelho e transformada em uma imagem, que, com muito treino, é observada e julgada pelos olhos e conhecimento técnico do ultrassonografista. 

Geralmente, na ultrassonografia transparietal abdominal de cães e gatos, usamos frequências que variam de 5,0 MHz até 10,0 MHz. Muitíssimo altas. Por isso temos a necessidade de remover os pêlos abdominais dos pacientes que avaliamos, afinal, sua função de reter ar entre ele e a pele para manter a temperatura de um mamífero homeotérmico adequada é muito eficaz, conferindo ao ultrassom mais uma barreira ecográfica, já que as ondas sonoras viajam em linha reta, como as de rádio. É tambem por este motivo, que mudamos a frequência sonora do nosso transdutor diversas vezes durante um exame. 

Os sons de frequência mais baixa geram ondas com maior capacidade de alcance, porém menores, ou mais "chatas", piorando a qualidade do resultado final, enquanto que os sons de maior frequência são compostos por ondas maiores, ou mais "altas", que percorrem distâncias menores mas geram respostas ecográficas melhores. "As rádios FM possuem excelente qualidade de som mas tem alcance limitado (em media 100 quilômetros de raio)" (http://www.significados.com.br/fm/).

A ultrassonografia nos auxilia a observar o interior de um abdômen, por exemplo, sem a necessidade de abri-lo cirurgicamente.
Além do abdômen, tudo aquilo que permite a passagem do som no será descortinado para a visão do observador. Músculos, vasos, linfonodos, órgãos, tecidos, gordura, massas... Até a superfície dos ossos terá delineamento, podendo indicar alterações de trajeto, contorno e forma.

Desde de o começo de sua aplicabilidade, mais ou menos nos idos dos anos 1960 (...), a ultrassonografia evolui com o auxílio de softwares e telas de melhor resolução, passando de uma complicada operação que envolvia uma tina cheia d`'agua onde o paciente era submerso até pequenos aparelhos portáteis com a possibilidade de serem contectados diretamente ao aparelho smartphone.

Atualmente, na medicina veterinária a ultrassonografia é bastante utilizada para a avaliação abdominal e cardíaca, podendo englobar o encéfalo (quando o animal possui porte inferior a 10kg), os globos oculares, o pescoço e todas as suas estruturas, a parede torácica, a superficie pulmonar, a cavidade torácica, o coração e seus principais vasos, a musculatura e a vascularização central e periférica, o abdômen, os contornos ósseos, os linfonodos.