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O fígado





Muito já comentamos sobre os rins, a bexiga, as afecções gastro-intestinais... Porém, o fígado permanece um assunto meio distante e pouco comentado. De maneira nenhuma isso se dá por falta de interesse ou possibilidades de avaliação, mas sim pela dificuldade que há de se obter um diagnóstico sequer próximo de preciso quando se trata deste grande órgão parenquimatoso. 

Fisiologicamente falando, o fígado é responsável por um sem-número de funções, dentre as quais podemos destacar a secreção de bile (o armazenamento é por conta da vesícula biliar); a estocagem de glicogênio; a síntese proteica; a produção de fatores de coagulação; a metabolização de algumas substâncias para transformá-las em algo útil ou menos nocivo ao organismo; a sintetização de colesterol; a barreira imunológica e a transformação de amônia em ureia. 

O grande desafio no diagnóstico das doenças hepáticas é que nem sempre as alterações imaginológicas são clássicas ou correspondem à realidade clínica e laboratorial do paciente. Isso sem mencionar que a avaliação deste órgão é muito subjetiva e está diretamente ligada ao ultrassonografista, à sua experiência, o transdutor, os ajustes do aparelho, a frequência utilizada e etc. 

Doenças difusas como linfoma, leucemia e amiloidose podem produzir hipoecogenicidade generalizada, assim como hepatite aguda (normalmente, porém, a ecogenicidade mantem-se inalterada neste caso) e a congestão passiva, que pode vir acompanhada de vasodilatação local e hepatomegalia, e normalmente indica cardiopatia. 

Ao se pensar em infiltração hepática (lipidose), hepatopatia esteroidal (doença endócrina), hepatite crônica e cirrose/fibrose hepática, espera-se encontrar o parênquima difusamente hiperecóico. Alguns casos de linfossarcoma também podem produzir a mesma alteração de ecogenicidade. 
Dessas doenças hepáticas, destacam-se as que também produzem hepatomegalia conjunta à hiperecogenicidade: lipidose, hepatopatia esteroidal e linfossarcoma. 
Se combinada à hiperecogenicidade parenquimal, a microhepatia acompanhada de irregularidade de bordas e formações nodulares regenerativas pode sugerir cirrose ou hepatite crônica. Lembre-se que muitas vezes a cirrose e a hepatite crônica causam também ascite. 

É importante ressaltar que alguns gatos obesos podem apresentar infiltração hepática gordurosa mesmo sem ter lipidose hepática - daí a importância de outros exames complementares.

Algumas imagens ultrassonográficas são mais indefinidas, causando ecogenicidade mista e consequentemente ecotextura desigual, grosseira. Neste caso, determinar a origem e o fim das alterações pode ser muito desafiador, bem como ter certeza de que realmente há diferenciação do parênquima. Por isso, a biópsia hepática torna-se imprescindível. Nessas situações o uso de Doppler também pode ajudar no diagnóstico e na escolha do local de biópsia, já que a amostra não deve conter grande quantidade de contaminação sanguínea.  

Se o ultrassonografista se deparar com um padrão de colmeia de abelha ou de queijo suíço (particularmente acho que se parece mais com um pedaço de cupim bovino), deve-se considerar dermatite necrolítica superficial ou síndrome hepatocutânea - denominação bastante sugestiva.

Os filhotes podem apresentar aumento sérico da ALT e hepatomegalia fisiológicos, não havendo significância clínica necessariamente. 

Obrigada a todos pela marca atingida de 30.000 visitantes! É graças a vocês que tenho vontade e gosto por me aprofundar na imaginologia!




Comentários

  1. Minha cadela morreu ano passado por causa de uma ruptura hepática (provavelmente por "acidente" no banho e tosa) que causou hemorragia interna. Ela ficou extremamente ictérica e com abdomen distendido, porém na ultrassonografia não foi encontrado líquido livre nem alterações hepáticas e estavam tratando ela como se fosse doença do carrapato ou leptospirose. Ela morreu dois dias depois, 12 horas após uma transfusão de sangue para controlar a anemia e só descobrimos o que aconteceu após a necrópsia!!!

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    1. Nossa, que história diferente. Usualmente visualizamos líquido livre abdominal, mesmo que em pequena quantidade, em casos de ruptura de algum órgão parenquimatoso e bem vascularizado como o fígado. Que acidente enorme deve ter sido para provocar esse quadro! Ou então ela já tinha uma hipersensibilidade vascular prévia que poderia ser causada por alguma doença sanguínea como a do carrapato. Na necrópsia foi possível ver a lesão hepática, é? Você ainda tem as imagens da ultrassonografia que foi realizada na época? Gostaria de me enviar por e-mail?

      Grata!

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    2. Minha pastor está com os exames de sangue normais e algumas degenerações ósseas no torax. Mas o q mais me preocupa é q tem comido pouco e hoje mesmo vomitou e não quer comer nada. No ultrassom foi constatado hepatomegalia, com causa indefinida e por ser agressiva uma biópsia disseram não ter necessidade dessa pequena cirurgia por causa do exame de sangue estar normal. Não sei mais o q fazer...


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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Kkk desculpe deletei sem querer, já postei novamente.

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    1. Oi Luciana,

      Creio que a melhor atitude neste caso seja acompanhar de perto sua pastora, seja com o clínico, seja com exames complementares como ultrassom e sanguíneo. Mantenha-nos informados :)

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  4. Bom dia! Meu nome é Katherine Letícia da Silva, sou Médica Veterinária, não sou clínica, trabalho na área de fiscalização e moro no Acre. Tenho uma yorkshire de 8 anos que está apresentando dor abdominal intermitente há cerca de 3 meses. As dores passaram a ser mais frequentes e sempre no horário da manhã após a alimentação. Após consulta e um exame de ultrassom foi achada uma alteração no fígado, descrita no laudo como estrutura com ecogenicidade aumentada em relação ao fígado. Ela está comendo e evacuando normalmente. Teve vômitos em uma ocasião e tratei com plasil oral, cessou em um dia. As dores foram tratadas com ranitidina, mas não cessaram totalmente, tentarei o tratamento com omeprazol. Aqui não há recursos como ecografia ou tomografia e nem especialistas, estou consultando com um clínico e um cirurgião e fui aconselhada a fazer o acompanhamento por imagem caso a estrutura cresça ou desapareça. Também foi levantada a hipótese, pelo colega que fez as imagens, de seja um artefato, uma sombra de uma alça ou do estômago sobre o fígado. Gostaria de te enviar as imagens para que você pudesse ver por si mesma e me dar uma opinião. Você poderia fazer isso?

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  5. Ultrassom do fígado pode indicar sinais de envenenamento? Meu cão estava com sinais de envenenamento (trêmulo, salivando, apático). Ao ser atendido, fez-se uma ultrassom e disseram que apesar de estar aumentado o fígado dele não estava "escuro" e ele poderia ir para casa. Uma semana depois ele convulsionou, ficou internado, retornou pra casa (ainda com alterações no abdome), ainda sem saberem o que foi. No dia seguinte ele retornou a convulsionar e infelizmente teve uma parada respiratória e faleceu. Ainda sem sabermos o que causou. Particularmente acredito no envenenamento, mas essa coisa do fígado "não escuro" na imagem da ultrassom, procede?

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    1. Oi Robbe,

      Obrigada por participar!

      Envenenamento geralmente mata logo na sequência, e não alguns dias depois. Eles falam de "fígado escuro" pois quando há mais vascularização nele, como em um caso bem agudo de envenenamento, por exemplo.
      As características que você relata podem indicar convulsão e até outros casos.
      É muito difícil avaliar assim à distância, mas seria interessante você trocar mais ideias com os médicos que atenderam ele, de mente e coração abertos para avaliar outras possibilidades que não apenas o envenenamento.

      Abraços, Fernanda

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